O sítio Remanso e sua produção de orgânicos que alimentava minha família – Foto: Reprodução

“É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar
em ressonância com o outro, corpo e alma,
e somente com ele ou ela”. (André Gorz).

Na linha do tempo dos sites de redes sociais, enxergo janelas para um mundo íntimo outrora inacessível. De repente, chegam-me notícias de pessoas mais ou menos próximas, um aniversário, um nascimento, uma morte (será que de Covid?), os primeiros dez quilômetros percorridos, a eliminação de alguns quilos depois de muita malhação na academia, uma tese defendida na universidade, um carro novo, uma viagem para Honolulu, o convite para um cargo público.

Esta semana, eu navegava inocentemente nesses mares nem sempre agradáveis – porque em tempos de extrema direita no poder o ódio e a mentira intoxicam ainda mais as relações humanas –, quando vi uma foto da celebração dos cinquenta anos de casamento do casal Fausto e Tanya.

Fiquei comovido.

Fausto Figueira é uma dessas figuras admiráveis, sempre disposto a auxiliar o próximo. Médico cirurgião, com uma carreira exemplar na área da saúde, foi como político da esquerda democrática, formado na dura luta contra a ditadura, que ganhou respeito e admiração de gente de diferentes colorações partidárias. Foi vereador, deputado, teria sido um excelente prefeito. Eu o conheci pessoalmente quando cheguei a Santos, apresentado por companheiros em comum, e desde então tenho tido o privilégio de gozar de sua amizade. Com Tanya tive menos contato, creio que foram duas ou três ocasiões, o suficiente para perceber a grande mulher que é.

Uma das filhas do casal, Mariana, mãe de três dos seus netos, foi por anos a fornecedora de alimentos orgânicos da minha família. Essa produção, que é feita no sítio deles em Guararema, chegava à minha casa às quartas-feiras pela manhã e deixava Lia extremamente feliz. Lia e Mariana, por conta dos contatos regulares, mulheres com mais ou menos a mesma idade e de sensibilidade semelhante, se tornaram próximas. Era costumeiro Lia se esquecer de fazer o pedido na data correta e Mariana, mesmo assim, selecionava nossa cesta, sabendo que aquela omissão era involuntária. Ensaiamos diversas vezes uma visita para conhecer o maravilhoso trabalho tocado por ela e seu companheiro, mas quis o destino que não fosse possível.

Quando soube que Lia estava doente, Fausto me fez uma visita. Foi à sede do instituto que dirijo com a desculpa de conhecê-lo, mas sua real intenção era expressar-me sua solidariedade. Eu, então, apresentei a ele nossas instalações, e ficamos algumas horas conversando.

Não sei se disse a Fausto o quanto aquela conversa foi importante para mim. Na ocasião, relatou-me alguns dos percalços que ele e sua amada companheira enfrentaram e como fizeram para superá-los. Contei quem era o médico que estava a cargo do tratamento de Lia e Fausto me disse que não poderíamos estar melhor assistidos, porque quando precisaram vencer o câncer foi a esse mesmo médico que recorreram. Senti conforto e até certa esperança.

A foto das Bodas de Outro de Fausto e Tanya me fez recordar do livro de André Gorz, Carta a D. – História de um Amor, que já citei em outras ocasiões por ser uma das obras mais tocantes sobre a longevidade de uma relação amorosa.

“Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher.”

Esse trecho se repete duas vezes no livro, com pequenas variações. Logo na abertura, e no antepenúltimo parágrafo, de onde tirei a citação.

André, que não se chamava André, mas Gérard, casou-se com Dorine e com ela dividiu sua vida. Li esse livro muitos anos atrás, e Lia também o leu. A leitura nos convocou a falar sobre o futuro, sobre como nós nos imaginávamos em 2050.

Envelhecer ao lado dela era, sem dúvida, o meu principal projeto de vida. Mas sempre soube que não o realizaria a qualquer custo. A longevidade não é um fim em si. Não mede o amor. Quantos são os casais que por imposições de uma cultura opressora permanecem juntos sem se suportar, desperdiçando seu precioso tempo?

Daí meu entendimento de que só faria sentido continuarmos juntos se fôssemos capazes de renovar regularmente nossa capacidade de nos oferecermos uma felicidade duradoura. Se conseguíssemos, uma e outra vez, e sempre, e tanto, nos reapaixonarmos um pelo outro, aceitando as pessoas diferentes que viríamos a ser.

Certa ocasião, a escutei fazendo planos de construir para sua velhice uma tenda vermelha com outras mulheres, para se cuidarem entre si, partilhando de suas companhias sem homem nenhum ao redor. Nesse sonho, não havia um lugar de protagonismo para mim. O macho que me habita estrilou. Mas não disse nada. O incômodo serviu para que eu exercitasse minha imaginação e refletisse sobre o que faria caso fosse essa a sua escolha.

Para onde eu iria? A que me dedicaria?

Naquele momento, eram perguntas meramente especulativas, porque eu não podia sequer imaginar que ela morreria aos 41 anos, vítima de um câncer de pulmão, em 2020. Agora, são perguntas que me perseguem nas horas em que estou em minha companhia. Será que eu estarei vivo em 2050? O que terei para dizer do amor?

Se é verdade que a longevidade por si só não mede o amor, sempre imaginei – e voltei a pensar nisso vendo a foto que inspirou este texto – que certos aspectos do amor só se revelam com o tempo. Especulo que para os persistentes esteja reservado um prêmio, uma espécie de pote de ouro no fim do arco-íris. Eu, infelizmente, não terei acesso a esse segredo, mas tenho profunda admiração por aqueles que o têm. 

Durante estes meus dias de luto e pandemia, recebi muitas manifestações de carinho. Uma delas de outro casal que admiro profundamente, por cultuarem um imenso e longevo amor.

Sérgio e Yara se casaram em 1959, e vivem juntos desde então. Frequentei algumas vezes a casa do Dr. Sérgio Sérvulo da Cunha e Yara Paolozzi Sérvulo da Cunha, para minha alegria. Ali, há um lar, com seus muitos filhos e netos.

Sérgio, com mais de oitenta anos, no meio da pandemia, veio, seguindo as estritas normas de segurança, trazer-me uma edição de seu novo livro, sobre o qual havíamos conversado, e um bolo.

Eu, então, lhe escrevi:

“Querido Dr. Sérgio,

Estou há dias para lhe escrever. Primeiro, para agradecer pelo livro e pelo bolo. Eu estava no meu quarto quando Júlia entrou e me contou de sua visita. Muito muito obrigado mesmo. Diga a Yara que aqui em casa consideramos que o bolo de chocolate dela foi o melhor que comemos nos últimos tempos. Eu, mesmo, não me lembro de um tão gostoso…muito muito obrigado pelo carinho”.

No dia seguinte, a resposta:

“Bom dia, Rodrigo

Yara ficou contente porque vocês gostaram do bolo. Mas é preciso corrigir: eu, pelo menos, jamais comi um igual”.

Sérgio estava coberto de razão. Jamais comi um bolo como o de Yara. O melhor bolo de chocolate de toda a vida. Eu realmente queria que Lia o tivesse provado, pois acho mesmo que não era um bolo, mas um delicioso concentrado de cacau e amor.

Algo que sempre me chamou atenção na história deles é que Sérgio escolheu assumir o sobrenome de sua esposa em sua persona de poeta.

Sérgio Paolozzi tem um belíssimo livro que reúne os poemas de toda sua vida, e em uma das páginas encontrei versos que ajudam a entender a fértil relação dos dois.

“todos têm direito ao amor:
essa lei eu faria,
se fosse legislador.

a última coisa que você pode fazer
é se acostumar com o amor.
ele deve ser, dia e noite,
como um sol deslumbrante,
um vento arrasador”.

Logo depois do natal, o primeiro depois da morte de minha companheira, meus pais, Jaime e Solange completarão 47 anos de casados. Eles namoram desde que tinham 15 anos de idade. Tiveram três filhos, sete netos. Tenho orgulho de pertencer a essa família. Mas também plena consciência de que essa é apenas uma das muitas possíveis formas de se relacionar.

São múltiplos e tortuosos os caminhos que levam à felicidade.

Nesta quinta, pela manhã, voltei a encontrar Romão, o catador de recicláveis que meses atrás me inspirou a iniciar a série de crônicas. Eu havia separado um ventilador de teto para lhe entregar, mas entretido com outras coisas me esqueci do horário. Quando fui até o portão, para minha surpresa, ele ainda estava pela área. Ao me ver, abriu um belo sorriso. Eu retribuí. 

Luzinete, sua primeira esposa, morreu em dezembro de 1998, aos 29 anos, vitimada por um câncer de mama diagnosticado tardiamente. O primeiro fim de ano, me confessou, foi marcado por uma dor quase impossível de suportar. Era tudo muito recente. Demorou quatro anos para se casar novamente, com Silene, que o ajudou a cuidar dos três filhos de seu primeiro casamento. Depois de dez anos ao lado da segunda esposa, fez reversão da vasectomia e com ela teve mais três filhos.

Ainda hoje, me confidenciou, costuma olhar com saudade as fotos que estão no álbum do seu primeiro casamento. A atual esposa, explicou, não liga, porque sabe que os mortos devem ser respeitados. Em épocas como esta, de celebrações familiares, o buraco da ausência alarga. Me despedi dele com o coração apertado, fui caminhando pelo corredor de minha vila, quando escutei:

– Rodrigo, feliz natal! Força!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Folha Santista