Foto: Arquivo Pessoal

A escrita nos uniu. A leitura também. Desde que nos conhecemos, desenvolvemos o hábito de ler um para o outro. Líamos de tudo, sem amarras: poemas ou trechos de livros em prosa, nossos próprios textos, até reportagens e notícias de jornal. Ela adorava ler em voz alta para os outros, adorava que lessem em voz alta para ela. Quando nossos filhos nasceram, ler para eles passou a ser uma de suas alegrias.

Durante uma viagem internacional, gravei um áudio com um conto inteiro de Anaïs Nin e o enviei pelo celular. Estávamos com saudades de nossos corpos, o que tentei compensar com minha voz. Ela gostou tanto da experiência de ouvir-me recitar um conto erótico que quando voltei me pediu que lesse para ela o livro todo. Por dias, nos divertimos assim. Não era à toa, portanto, que se chamava Lia.

Lia, a que gostava de ler, escrever, recitar, para si e para os outros.

Pode ser que algumas pessoas vejam a mim como o poeta do casal. Afinal, tenho mantido uma rotina de produção poética, publiquei uma coletânea de poesias e alguns poemas em antologias. Eu, no entanto, sabia que uma poeta morava nela e desabrocharia quando menos esperássemos. Em seus últimos anos de vida, a poesia foi uma de suas várias formas de expressão. E ela queria ser publicada.

Em seus cadernos autobiográficos, deixou poemas lindos, alguns escritos em versos livres, outros em prosa. Desde sua morte, venho reunindo o que encontro e espero um dia realizar sua vontade, dando luz à uma edição bonita e bem cuidada de sua literatura. Uma parte do trabalho de organização ela inclusive já havia realizado, colocando textos de que gostava num único arquivo de computador.

Penso que seria lindo transformar esses escritos em uma obra de teatro, possivelmente um monólogo, em que uma mulher (encenando muitas) os recite. Já cheguei a falar sobre esse assunto com algumas de nossas brilhantes amigas artistas. Uma delas me disse, inclusive, que um monólogo seria apenas uma das opções. Talvez algo polifônico, com muitas mulheres e suas vozes, música e dança, realizando uma espécie de ritual de vida-morte-vida, também seria bom.

Cito um de seus poemas, escrito em 5 de maio de 2018:

“A mãe
As mães
Minha mãe
A mãe que me tornei
A mãe que fui
A mãe em mim
Cuida. Sofre. Acolhe. Perdoa.
E sabe deixar ir
A filha voa: livre”

Tínhamos diferenças importantes em nossa forma de nos relacionarmos com a escrita. Eu sempre levei a literatura demasiado a sério, estudando suas escolas e autores, reverente ao que se convencionou chamar cânone, o que exigiria de mim ler todos os grandes escritores de todos os tempos antes de me arriscar a escreveu meus livros – o que obviamente jamais fiz. Com esse movimento, bloqueei muitas vezes o que há de sagrado na escrita: a expressão da verdade interior.

Para Lia, a literatura era puro deleite, um escape para o mundo das histórias, onde realizava suas fantasias, deixava sua fértil imaginação cavalgar sem sela. Não que não se importasse com autores – priorizava, por exemplo, ler mulheres. Mas a autoria era algo menor que os personagens e as tramas. Contar histórias era muito mais que a forma do texto, sua métrica, suas eventuais rimas. Era cheiro, cor e sentimentos em profusão. O que interessava a ela era a própria dimensão mística da palavra, que se perpetua ao longo do tempo, de texto em texto, de voz em voz, de sonho em sonho.

Essa diferença entre nós ficou ainda mais evidente depois que ela aprofundou sua parceria com Bianca Santana, com quem formou uma dupla de feitiçaria, em oficinas que promoviam a escrita, a leitura, o auto-cuidado e um repertório crítico feminista.

Observando-as, via que por meio delas a escrita fluía, livre, do coração para a página, do coração para a voz, do coração para o grito ou para o sussurro.

E eu, que achava que não se pode ser um grande escritor sem saber de cor as principais passagens de A Divina Comédia, passei a querer experimentar uma escrita e uma leitura livres do meu ego. Uma relação com a literatura livre das imposições desse racionalismo patriarcal que gruda na pele como petróleo. Buscar essa liberdade se tornou uma questão vital desde que vivi a morte do meu amor, meses atrás.

Outro poema de Lia, de 25 de outubro de 2017:

“PLIFT, PLOFT, PLUM
não há dor que resista
não há incomodo que persista
flores para abraçar
temperos para seduzir
as frutas para adoçar
a vida é leve
a dor não é sofrimento
voe menina,
sem medo algum
PLIFT, PLOFT, PLUM”

Sempre acompanhei com admiração seu processo de entrega à leitura, à escrita, às histórias, e à dinâmica de cura que esse encontro com a voz interior gera. Nossa vida como casal era feita de muitas ressonâncias e estímulos mútuos. Em 2015, no dia de seu aniversário de 35 anos, eu a presenteei com uma edição da Rocco do Mulheres que Correm com o Lobos que comprei na Realejo Livros. Nela, há uma dedicatória: “Para Lia, meu amor, minha bruxa, meu ideal de feminino, te amo”.

O livro me havia sido recomendado por minha terapeuta à época, Célia Loch, que por mais de uma década promoveu uma roda de leitura baseada nessa emblemática compilação de histórias e chegou a se comunicar com a autora, Clarissa Pinkola Estés. Eu não sabia que aquele era um livro que Lia namorava. Dei a ela porque, após ouvir as explicações de Célia, me pareceu que as leituras junguianas dos contos clássicos pudesse contribuir para seu processo de encontro consigo mesma. Hoje, essa edição se tornou uma relíquia familiar, pois está toda grifada e manuseada. Júlia, nossa filha, me pediu para que fosse a guardiã do livro. Agora, ele é dela.

Com base em Mulheres que Correm com os Lobos, Lia fez girar rodas de mulheres, ocupando diferentes espaços na cidade, como a extinta e saudosa Casa Fórum, que durou pouco tempo mas marcou uma época. Também chegou a ocupar a área de eventos do restaurante indiano Govinda. E, como não poderia deixar de ser, promoveu seus rituais na Realejo Livros.

Eu não escondo de ninguém que a Shakespeare & Company dos Trópicos, como a apelidou o maestro Gilberto Mendes, é meu lugar predileto nesta cidade. Nela, já lancei livros, comemorei aniversário, celebrei conquistas e chorei minhas mágoas. Por um bom tempo frequentei a livraria todas as sextas-feiras, nas apresentações do duo Choro de Bolso, de meus amigos Débora Gozzoli e Marcos Canduta. De tudo, nesta pandemia, creio que seja dessas noites que sinta mais falta.

Na livraria do Zé Tahan, Lia também viveu momentos muito especiais. Lembro-me de ela ter ficado muito feliz em realizar o ciclo Literatura e Mulheres, para o qual a entrada de homens não era permitida.

O ciclo, se a memória não me falha, foi entre novembro e dezembro de 2016, como parte de um projeto com o Ministério da Cultura. Lia sempre me explicou que trabalhar só com mulheres permite criar um ambiente de confiança e acolhimento, de escuta e cuidado, que fica prejudicado quando homens estão juntos. Nas rodas na Realejo, porém, ela queria, ao fechar a porta, provocar o mundo masculino, autocentrado e competitivo dos escritores. Ela conseguiu e se divertiu com isso.

Outro dia, minha grande amiga Luciana Oliveira lembrou-se que ela e sua filha, a Aninha, conheceram Lia nesses encontros, por acaso. Eu não sabia disso. Lu me disse que jamais se esqueceu da potência da experiência de ouvi-la narrar seus livros prediletos num ambiente amoroso. Lia, de fato, lia como ninguém.

Num de seus cadernos pessoais, encontrei-me com o roteiro de uma de suas oficinas de leitura e escrita, em que prevê ler um poema de Cora Coralina. Não sei se ela o fez, mas fechei os olhos e imaginei-a declamando-o, voz ao vento:

“Meu vintém de cobre! Arrebentar todas as amarras
e contenções represadas.
Meu vintém! está comigo nestas páginas de escrever”

*Este artigo não refletenecessariamente, a opinião do Folha Santista

Rodrigo Savazoni
Jornalista, escritor e produtor cultural. Um dos fundadores e atualmente diretor-executivo do Instituto Procomum. Cursa doutorado em Ciências Humanas e Sociais na UFABC e tem alguns livros publicados no Brasil e no exterior. Vive em Santos, com seus dois filhos.