Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

“Todo dia o sol levanta

E a gente canta

Ao sol de todo dia

*

Fim da tarde a terra cora

E a gente chora

Porque finda tarde”(…)

(Caetano Veloso)

Nas minhas voltas para casa do trabalho fito o sol. Em especial nos dias difíceis, olho para ele e penso na força da natureza e em quantas pessoas, há mais cinco mil anos, devem ter pedido coragem, repostas e acolhimento.

Jaqueline tinha 30 anos e estava há mais de dez em tratamento oncológico. Isso significa que passou a maior parte da sua juventude fazendo exames, consultas, cirurgias, quimioterapia e radioterapia. Mesmo assim, conseguiu seguir com seus planos, construiu sua família e carreira profissional. Tinha um olhar poético de valorização das miudezas. Como sabia que seu tempo poderia ser curto prezava por qualquer fresta de respiro. Adorava o cheiro do bolo de chocolate saindo do forno de sua mãe, o pastel quentinho vindo da feira ou um banho de mar mesmo em dias frios. Sua atividade predileta eram piqueniques em lugares abertos contemplando o céu.

Em momentos de crises da sua saúde, ela precisou de assistência para atividades rotineiras e usou a cadeira de rodas para seus deslocamentos. Tinha falta de ar e necessitava de oxigênio contínuo, porque sua saturação se reduzia a valores perigosos. Mesmo assim, pedia aos familiares que a levassem para o jardim a fim de ser atravessada pelo vento, de sentir o sol em sua pele e assistir ao crepúsculo. Nesses momentos, ao ar livre, sua saturação de oxigênio subia espontaneamente, mostrando a importância das sensações do corpo para a manutenção de seu equilíbrio e de sua energia vital.

Sua última internação foi prolongada e isso fez com que ela permanecesse por muitas semanas dentro do hospital. Dentro dos diversos lutos que ela enfrentou estando numa instituição, a falta de amplas janelas que permitissem a conexão com a natureza era o mais difícil de confortar. Nos dias em que estava bem fisicamente ela ia até a janela para olhar para o céu. Mas a ventana dava para um espaço interno onde tinham reservatórios de oxigênio, sem árvores, flores ou pássaros para matar a saudade. Mirava o azul do céu desejando o dia de sua alta. Um dia, perguntei o que a deixava triste. Ela me respondeu que, dentre tantas coisas, era o sequestro do seu pôr do sol.

Pensava muito na sua solidão que a sufocava mais do que a falta de ar causada pelo câncer. Por ser criança, as visitas de seu filho eram restritas. Sua irmã e esposo precisavam revezar seus trabalhos, cuidados com as crianças e visitas a ela. Mas, mesmo quando estava rodeada de seus amores, ainda se sentia solitária e assustada. Afinal, costumava me dizer que “nunca tinha feito isso antes”, que estava na estreia de sua partida da vida. As paredes brancas do hospital, sem quadros, sem fotos e impessoais deixavam a impressão de ser o local mais solitário de toda sua existência. Afirmava não ter tanto medo da própria morte e sim das privações que viveria até lá e como seria seu modo de morrer.

Para esses dilemas não havia medicação que desse jeito. É um problema complexo de natureza profunda. Para mim, a única forma de acolher essa demanda é no cuidado interprofissional em que médicas e médicos, enfermeiras e enfermeiros, além de todos os membros da equipe multiprofissional, trabalham em conjunto identificando e traçando um plano de cuidados personalizado.

Há quem estranhe falar sobre qualidade de vida para quem tem pouco tempo. Mas o cuidado paliativo é uma área de atuação, cujo o compromisso é alívio da dor e de outros desconfortos, oferecendo suporte às pessoas para que vivam tão ativamente quanto o possível até o dia da sua morte. Não se acelera e nem adianta o falecimento. É respeitado o tempo natural, melhorando a qualidade e influenciando positivamente o curso da vida. Mas pense em como o fato de estar internada em um hospital com regras rígidas dificulta essa proposta.

Por isso, um dos locais desenvolvidos para esse cuidar são as hospedarias, onde a assistência de cuidados paliativos pode ser oferecida de forma contínua com profissionais especializados nessa área de atuação em um ambiente mais flexível, possibilitando a construção de identidade dentro de um espaço coletivo. Esses locais geralmente se preocupam com as áreas externas e flexibilizam a entrada e saída de acompanhantes, familiares e cuidadores. A origem da palavra é a referência ao mesmo termo usado na Idade Média aos lugares de descanso de peregrinos. Mas, no caso, são locais para pessoas gravemente doentes, viajantes no sentido de que se aproximam do destino final da vida. O maior foco é cuidado total, que respeita não somente o corpo, mas o ser biopsicossocial e espiritual em um ambiente mais acolhedor que o hospitalar.

Jaqueline faleceu em um quarto coletivo de um hospital com impessoais paredes brancas e janelas pequenas. Mas sua passagem foi bem assistida, estava medicada, não teve dor ou falta de ar. Foi um momento bonito. A visita de seus familiares foi liberada e puderam se despedir e fazer os rituais simbólicos.

Mas, todo pôr do sol que presencio, lembro dela e percebo o quanto ela jogou luz nas minhas percepções. Como diria o poeta sírio Adonis: “Só quem se misturou com o horizonte pode abrir um caminho”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Folha Santista