Foto: Arquivo pessoal e Reprodução/Pixabay

Uma mulher trans afirma ter sido chamada de “viado” e ameaçada por funcionários ao longo do show do cantor Pablo do Arrocha, em Santos. A ofensa aconteceu após ela pedir água gratuita, conforme assegura portaria anunciada pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, no último sábado (18).

A vítima é a youtuber Morena Flowers, de 44 anos. Ela disse que comprou o ingresso para assistir o evento Festival Arretado há dois meses e meio e que estava empolgada em acompanhar o show do cantor de forró, que estava previsto para começar na madrugada de domingo (19), na Associação Atlética dos Portuários de Santos.

Ao lado de duas amigas, elas se dirigiram à casa de show, no bairro do Marapé, por volta das 20h30 do último sábado (18). Segundo Morena, ela adquiriu cinco fichas para trocar por uma cerveja.

Foi ao pedir a primeira bebida que o clima de empolgação deu lugar ao de revolta. Ela contou que a casa vendeu cervejas que não estavam à disposição. “Tinha muita gente discutindo, teve até briga”, disse, em entrevista ao G1.

Como forma de resolver o problema, Morena pediu às funcionárias a troca das fichas comprada, mas foi informada que elas não tinham autonomia para atendê-la.

Morena, então, foi indicada a procurar o responsável e, assim que o encontrou, reivindicou a troca das fichas e uma água, momento em que diz ter escutado a seguinte frase: “Espera aí, viado”.

“Fiquei muito brava com isso. Achei uma falta de respeito gigante. Sou mulher trans, não dou essa liberdade para ninguém”, afirmou.

Ela tentou procurar algum superior, sem mencionar a transfobia, apenas para solucionar o problema da cerveja. “Falaram que não iram trocar, que não peguei a cerveja porque não quis”.

Após reforçar o pedido de água, Morena disse que foi alvo de chacota pelo desconhecimento dos funcionários, além de ter sido ameaçada. “Um cara pegou, virou para o segurança e disse que tinham dois policiais do Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia) ali”.

Um dos funcionários virou para outro e disse: “Você está com sede? Porque eu não estou. Por que você precisa de água, então?”, lembrou a youtuber, ao reproduzir o diálogo.

Com o constrangimento, alguns seguranças se aproximaram e ela, com medo, resolveu ir embora. “Não pude assistir ao show. Não foi respeitada a portaria e tomei prejuízo das cinco cervejas. Cada uma custou R$ 14”.

Caso de polícia

A situação a instigou a procurar uma delegacia e registrar um Boletim de Ocorrência (BO). “Foi um caos, descaso e humilhação”. O caso foi registrado como injúria racial na Central de Polícia Judiciária (CPJ) de Santos.

Posicionamento

A organização do Festival Arretado afirmou que estava ciente da nova portaria e do caso mencionado. Além disso, ressaltou que procurou dar toda a atenção ao público no local. Eles acrescentaram que foi oferecido todo atendimento e, inclusive, água potável, mas a mesma não quis sair do local para o atendimento.

A organização destacou, ainda, que segue todos os protocolos e normas, com objetivo de oferecer entretenimento com segurança para todos.

O G1 também entrou em contato com o Portuários, mas não obteve retorno até a última atualização da reportagem.

Entenda a portaria

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, anunciou, no dia (18), uma portaria para permitir a entrada de garrafas de água para uso pessoal em shows no país. Outra medida é obrigar produtores a oferecer água de graça em dias de forte calor.

“A partir de hoje [sábado,18], por determinação da Secretaria do Consumidor do Ministério da Justiça, será permitida a entrada de garrafas de água de uso pessoal, em material adequado, em espetáculos. E as empresas produtoras de espetáculos com alta exposição ao calor deverão disponibilizar água potável gratuita em ‘ilhas de hidratação’ de fácil acesso”, escreveu o ministro.

A medida ocorreu após a morte de Ana Clara Benevides, de 23 anos, que passou mal durante o show da cantora Taylor Swift no dia (17), no Rio de Janeiro. A Secretaria Municipal de Saúde informou que ela foi atendida com uma parada cardiorrespiratória e levada ao hospital. A causa da morte ainda não foi informada. Não está claro se há relação com o forte calor ou com o baixo consumo de água.

A portaria do governo terá validade de 120 dias (até 17 de março de 2024) e deverá ser cumprida em todo o país. Na justificativa, o Secretário Nacional do Consumidor, Wadih Damous, afirmou que o objetivo é proteger a “saúde dos consumidores em shows, festivais e quaisquer eventos, especialmente expostos ao calor, em períodos de alta temperatura”.

Entre as medidas estão:

Garantir o acesso gratuito de garrafas de uso pessoal, contendo água para consumo no evento, devendo disponibilizar bebedouros ou realizar distribuição de embalagens com água adequada para consumo, mediante a instalação de “ilhas de hidratação” de fácil acesso a todos os presentes, em qualquer caso sem custos adicionais ao consumidor;

Garantir que tanto os pontos de venda de comidas e bebidas quanto os pontos de distribuição gratuita de água estejam dispostos em regiões estratégicas do local, a fim de facilitar o acesso pelos consumidores, consideradas a estrutura física e a quantidade estimada de participantes;

Assegurar espaço físico e estrutura necessária para assegurar o rápido resgate de participantes do evento, em caso de intercorrências relacionadas à saúde e demais situações de perigo;

A produção deverá assegurar o acesso gratuito de garrafas, contendo água potável para consumo pelos consumidores, devendo fixar os materiais de que tais recipientes podem ser compostos, a fim de garantir a segurança e a integridade física dos participantes.