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Existem pouco mais de duas mil pessoas bilionárias no nosso planeta, e eu digo com uma certeza máxima que essas pessoas não deveriam existir. E a conta é básica para que cheguemos em tal conclusão:

Um milhão de segundos são quase doze dias.

Um bilhão de segundos são quase trinta e dois anos.

O Brasil ultrapassou a marca de oitenta mil mortes ocasionadas pela Covid-19.

Nosso inimigo invisível segue vitimando pessoas que, longe do nosso ciclo social, tornam-se números frios, desimportantes, e não despertam em totalidade nossa empatia. Números que já nos acostumamos a ouvir nos noticiários e ler nos folhetins. Números duros, inexatos e subnotificados. E os dias passam, e nosso governo incompetente e conservador faz com que a invisibilidade do inimigo seja ainda mais eficaz.

Em meio ao caos, fica ainda mais clara para mim a divisão social gritante que nos rege: Brancos e negros, ricos e pobres, “normais” e “anormais”. Pessoas que recebem tratamento exclusivo, pessoas que morrem em filas de hospitais. Pessoas que estão “quarentenando” em suas mansões pagas com dinheiro público desviado, e pessoas que não têm o que comer na mesa, que não têm acesso a oportunidades e sequer desfrutam de saneamento básico.

Ante a avalanche de absurdos iniciada com a eleição de um homem que acumula características assustadoras, entro num processo mental de tentar compreender os anseios de uma população que busca numa figura tão primitiva uma salvação inexistente. Ao mesmo tempo, me esforço para entender como vivem os detentores de grandes fortunas.

Vejo duas grandes bolhas, uma cor de rosa, outra cinza. Em algum ponto as bolhas se tocam e à medida que isso acontece a bolha rosa fica ainda mais brilhante, e a bolha cinza, cada vez mais nebulosa. Mas, às vezes, durante este contato, alguns indivíduos trocam de bolha.

A membrana da bolha cor de rosa impede uma visão real da outra, mas a membrana cinzenta permite uma visão parcial da bolha colorida, como num sonho, parece algo crível, mas muito distante. O rompimento é doloroso e quando nos damos conta de tamanha divergência, de tamanha injustiça, nos parece impossível transpor as arestas que nos limitam a um lugar pré-determinado por condições que nos precedem.

Sendo assim, é muito mais difícil conceber que a bolha rosa só fica cada vez mais rosa e atraente porque suga, desde sua origem, a cor da outra bolha. Ao invés disso, os habitantes cor de rosa gritam que eles mesmos pintaram a membrana que os envolve, que o mérito de possuírem paredes tão vibrantes é todo deles. Até porque, se você reconhece, você precisa se responsabilizar.

Simultaneamente nós, nascidos da bolha cinza, nos sentimos culpados quando conseguimos atravessar a fronteira e adentrar nos domínios da bolha rosa. Culpa por sabermos que poucos de nós chegarão até ali, culpa por conhecermos bem a vida na esfera cinzenta, e por termos plena ciência de que as pessoas que estão ali vivem para sobreviver e pouco tempo sobra para desejar além disso, além do pão de cada dia.

A fraqueza humana sempre cria justificativas para protelar nosso fim comum. E durante a vida inventa artifícios ridículos para nos fazer acreditar que não compartilhamos das mesmas necessidades fisiológicas. Então, o homem branco fez o dinheiro, as leis, a constituição, a distribuição de terras. Comem em suas fartas mesas, arrotam, relaxam em suas piscinas de borda infinita, festejam em seus barcos brancos, olham para tudo como objeto de consumo e continuam historicamente reprimindo outros grupos para continuarem ali, num pedestal imaginário, único lugar onde é possível que se sintam superiores.

E dizem que vivem assim porque merecem. Quando eles mesmos determinaram quem poderia ou não merecer.

Quão utópico é esperar que viveremos um dia numa sociedade pautada por igualdade de direitos e acesso? Quão ingênua sou eu por desejar que nossas vozes sejam ouvidas e ecoem nos salões de mármore da ignorância?

O que justifica alguém morrer de fome para que outro alguém acumule tanto dinheiro? O que aconteceu conosco, enquanto espécie, para que nos achemos mais merecedores de vida do que outros, que sequer sabem como é viver sem desespero?

Quanto tempo falta para que consigamos furar a bolha cor de rosa? Espero que aproximadamente 12 dias e não 32 anos.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Folha Santista

Kamila Drieli
Escritora, mãe, mulher e formada em Biologia Marinha. Na infância, lia livros de fantasia. Com o passar do tempo, a escrita se tornou essencial. Seu primeiro livro – “A Portadora da Luz” – está disponível na Amazon. Hoje, ela usa diferentes meios para se expressar: música, desenho, poesia e fotografia.